Por mais que ela fale sobre o que sente, se deu conta de que não sabe expressar-se, por isso há dias carrega no peito um nó.
Nó de marinheiro desses difíceis de desfazer. Ela até tenta, escreve, corre, dança e nada, nada acontece. Pensa, re-pensa. Não encontra ouvidos ou não encontra palavras?! O que falta...
Ela não fala. Perdeu a habilidade de exprimir-se. Ela fala. Tenta pelo menos. Talvez queira apenas negar tudo isso, empurrar o que quer que seja para baixo do tapete. Não consegue.
Também não quer agir, não quer entender, ou finge não querer. é tão difícil? Porque ela cansou de tentar entender, aceitar. Não que ela esteja cansada, ela só não entende e tem dificuldade em aceitar o que não entende. Disseram que nem tudo tem explicação... pelo visto ela vai carregar o nó por um bom tempo.
Isso faz com que ela fique parada no tempo. Perdida, ou não. Parar pode ser bom. Na verdade está cansada de ficar parada, mas, não consegue agir. Chegou mais uma vez ao ponto insustentável da questão... solução?! Talvez não exista. Assim parada ela pode sentir o vento no fim de tarde, pode ver as cores do pôr-do-sol, pode ver os carros apressados, pode andar sem rumo, pode respirar fundo. Ela só não faz nenhuma escolha. E sente medo por isso... Ela opta por nada. Ela espera. Pede paciência e sabedoria.
Acredita que o nó vai transformar-se em um lindo laço. Demora.
“eu sinto como se estivesse nadando solta dentro mim, essa semana comecei a perder um dos sentidos, me propus a organizar essa bagunça. não depende só de mim... em algumas manhãs eu acordo como se meu peito estivesse sendo esmagado por borboletas. Um vazio me preenche de dentro pra fora. Eu tenho medo. Eu vou me ocupando de lacunas. Não quero mais brincar nesse tabuleiro, mais desistir não é uma opção”
ela estava quase inteira... quem a via de longe nem notava as rachaduras. Pobre menina, tinha esquecido como era ser pedaços. Só lembrava como era difícil juntar todos e colocá-los no lugar.Certa vez, estava tão perdida e distraída que ao terminar a arrumação, nem se reconheceu, estava toda trocada. Não conseguia sair do lugar, então se desmontou. Optou por ficar um tempo espalhada pelo caminho, sabia que não era a hora de se juntar. De longe ela observava tudo, caída ela sentia tudo, foi respeitando seu tempo e aos poucos seus pedaços foram se juntando, pela primeira vez ela estava quase inteira... pelo tamanho do estrago ela sabia que faltaria alguns pequenos pedaços mais quando se olhou ficou confortável com o que viu, optou por ficar assim, quase inteira, um pouco trincada, não é tão ruim assim, pensou e saiu pelas ruas.
Foi quando de repente ela encontrou algo novo e inesperado... rebocaram toda a menina, ela estava inteira de novo. Passado um tempo, estava ela novamente aos pedaços, desta vez não se importando juntou seus pedaços, se apoiando aqui e ali, optou por não esperar e saiu pelas ruas mais sozinha do que nunca, toda desajeitada, toda trocada. Evitava espelhos, ficar sóbria. Fazia questão de se despedaçar esbarrando aqui e ali, sem se importar com os pedaços que ficavam pelo caminho. Cansada, optou por parar. Ficou parada por um bom tempo e tudo foi se organizando, assim, com ela parada, era bonito ver os movimentos dos caquinhos.ela estava de novo quase inteira, e toda cheia de falhas e rachaduras optou por não se importar e saiu pelas ruas. Não demorou muito e lá estava ela de novo aos pedaços. Riu. Optou por pedir ajuda... chorou, riu, abraçou, beijou, dançou, falou, tentou....Agora, toda amparada e com um escudo bem grande ela sai às ruas, um pouco temerosa, não se envolvendo com nada a não ser com ela mesma, ela vai... quase inteira, quem a vê de longe não nota as rachaduras, os burados... só os que a veem de pertinho percebem que mesmo faltando pedaços, ela segue inteira... desse jeito meio torto, com um escudo a frente. opta por ir tortamente pelo caminho...
As 7h44min toca seu celular, ela ainda com sono vê o número desconhecido e atende. A voz desesperada do outro lado diz: “Ney, esqueci o capacete”, ela revira os olhos, ativa o modo silêncioso e volta a dormir.
Mais tarde já desperta lembra-se da ligação. Meu Deus como pode ela ter esquecido o capacete? Sente o desespero em si e o procura, em qual caixa ela deixou o capacete?
Abrindo suas gavetas ela se encontra com outras de si, ela olha uma com saudade e os olhos rasos d’água, pensa por instantes que seria melhor tirá-la dali, deixar que ela habite novamente seu corpo. Com os braços já estendidos prontos para tirá-la, opta por trancá-la... o tempo dela já passou, talvez ela sofra mais saindo agora. Continuando a busca pelo capacete, ela esbarra num corpo caído evita olhá-la nos olhos, sabe que se fizer isso não terá forças para sair dali, sai correndo sem olhar pra trás, o corpo continua caído, imóvel, pois sabe que hora ou outra vai ser mais forte e derrubar a menina. Passa por outra que nem lembrava que existiu um dia, ri com todas as lembranças, sente vontade de ficar ali com ela e aprender mais de si. Lembra-se do capacete. Despede-se e vai embora sorrindo, se ela ainda fosse assim..., pensa consigo mesma. Passa por outras e não sabe ao certo o que sentir, hora raiva, hora alegria, hora tristeza, hora medo... se perde entre tantas gavetas, cansada, desiste de encontrar o capacete, e fica ali olhando e lembrando como era ser ela, vagando distraída... a busca pelo capacete cansou a menina. Tudo está uma bagunça, ela respira e mesmo cansada opta por começar a organizar a bagunça sem tirar nada do lugar. Opta por tirar um pó daqui, uma teia de aranha dali, abrir uma cortina, outra janela, uma porta e vê satisfeita que um pouco de ar e luz já melhoram sua desorganização interna. Satisfeita vai embora... todas as outras dizem “Acredite em você” com um pouco de receio ela aceita o conselho. Hoje ela opta por acreditar em si. O capacete continua perdido... mas, a organização está apenas começando.
Hoje ela respirou fundo, trancou a respiração por alguns segundos, sentiu todo o medo, a insegurança, seu estômago embrulhar, soltou o ar e andou... optou por ser forte. Não que esta seja a opção mais fácil, mas sim, por ser necessário. Meio cambaleante, respirando fundo lá foi ela, passou pelo dragão com indiferença. Pelo menos se concentrou para não deixar que seu corpo falasse diferente, acredita ter se saído bem.
Ainda respirando e cambaleante ela optou por seguir em frente. Não que esta seja a opção mais fácil, mas sim, por ser necessário. Com o peito ainda apertado ela foi... ou pelo menos tentou se deixar ir. Tarefa que não é fácil para ela, abandonar nunca foi o seu forte e esquecer... ela nunca soube o que é isso. Não que nunca a tenham abandonado ou esquecido, é só que pra ela os mínimos detalhes fazem todo o sentido. Em cada ponto há sempre um mínimo detalhe que a faz lembrar de esquecer...
E os desacordos e desalinhos a faz parar. Se tivesse escolhido outro caminho, esse peso estaria a sufocando?! Optou por não pensar. Sim, porque esta é a opção mais fácil. Apenas caminhe...
Virando uma esquina, poderia ela ter feito a escolha correta?! Optou novamente por não pensar. Sim, porque esta é a opção mais fácil. E se tivesse dito? Se não tivesse sentido? Se tivesse ido? Se tivesse parado? Se tivesse agido? Optou por não pensar. Já bastava o peso que carrega dentro si, precisava chorar, afinal ser forte não é tão simples.
Cansada de chorar inventou para si um novo jeito para esvaziar os potes de mágoas acumuladas pelo tempo. Parou. E sentiu a brisa em seu rosto, o tempo nublado era seu desabafo então fechou os olhos, e deixou que a brisa levasse e lavasse cada gota de mágoa que apertava seu pequeno coração, de longe ela viu que algumas flutuavam e dançavam felizes por saírem de seus potes, já outras se agarravam, e não se deixavam levar, permanecendo onde estavam, para estas, é necessário ventania, tempestade... e assim, ela optou por fechar seus potes, respirar fundo, sentir suas dores e seguir em frente. Pode não ser fácil, mas é preciso tentar...
Ela está sentada, olhando para o horizonte fechado, esperando ansiosa pela tempestade, quer se ver limpa pra dançar e seguir em frente... não que esta seja a única opção. É a escolha dela.